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Estado de São Paulo 04/06/2016
Jean-Guihen Queyras toca as suítes para violoncelo de Bach

Violoncelista francês fará em dois concertos na Sala São Paulo.

O violoncelista catalão Pablo Casals era ainda um adolescente de 13 anos quando, durante um passeio por Barcelona, encontrou em uma antiga loja de música uma partitura que lhe chamou atenção. Era uma edição antiga das suítes para violoncelo de Bach. No caminho para casa, seguiu cantarolando os compassos iniciais da primeira das suítes. Era 1890 e, àquela altura, poucos haviam ouvido falar das peças. Quarenta anos mais tarde, no entanto, quando o agora celebrado virtuoso Casals realizou delas a primeira gravação, as suítes tornariam-se sinônimo de violoncelo, cuja fama ultrapassa o mundo da música clássica.
O fato de as peças terem ficado abandonadas durante boa parte do século 19, tidas como mero estudos para um instrumento que só se desenvolveria por completo muito depois de 1723, quando foram completadas, é um daqueles mistérios da história da música - em torno da++ qual fatos se apegam com a mesma ânsia que mitos e lendas. “É algo fascinante, mas não completamente impossível de explicar. A era romântica, na música, baseou-se de maneira muito forte na harmonia, o que criou um problema para o violoncelo, instrumento em que é preciso tocar uma nota de cada vez. É muito significativo que, apaixonado por Bach, Schumann tenha escrito uma versão das suítes em que o violoncelo era acompanhado do piano”, explica o violoncelista francês Jean-Guihen Queyras. “Ao mesmo tempo, as suítes reinventam o violoncelo como instrumento solista. Não é por acaso que, para nós, elas são uma companhia desde muito cedo. E para toda a vida.”
Queyras vai interpretar as seis suítes neste fim de semana na Sala São Paulo, pela temporada da Cultura Artística (a passagem por São Paulo inclui ainda masterclasses, hoje, 4, na Escola Municipal de Música). Hoje, toca as de n.º 1, 4 e 5; amanhã, 5, as de n.º 2, 3 e 6. “São duas horas de música. Isso é praticamente a duração de uma ópera, mas com a diferença de que, aqui, o violoncelo faz o trabalho todo sozinho”, diz. A comparação com a ópera não é gratuita. “Há uma variedade expressiva, de coloridos. Cada suíte é um mundo próprio e, ao mesmo tempo, forma um todo dramático.”

Fora do comum. A gravação de Queyras das suítes, lançadas em 2008, foi sucesso de crítica - e ajudou a confundir quem gosta de acoplar rótulos a intérpretes e seus trabalhos. No caso de Queyras, a desenvoltura com que interpreta Bach se somou a uma trajetória dedicada especialmente à música contemporânea. Não é um caminho “comum”, mas, de certa forma, o de Queyras nunca o foi. Nascido no Canadá, ele mudou na infância para a Argélia. Lá, passou três anos. A família seguiu, então, para a França, onde investiu na reforma de uma antiga propriedade em ruínas. E, claro, havia o violoncelo. 

“Acho que vem da infância e da adolescência, do início do meu contato com o instrumento, o desejo de pensá-lo também distante do ambiente mais tradicional, consagrado pelo hábito. Eu me lembro que em todos os conservatórios pelos quais passei, os estudantes de composição me procuravam para pedir conselhos, para perguntar o que dava para fazer com o violoncelo em termos de experimentação”, ele lembra. E esse processo ganhou ainda mais forma quando ele se uniu ao Ensemble Intercontemporain, importante centro de pesquisa estética criado em Paris pelo maestro Pierre Boulez. “Os dez anos que passei ali foram tanto o momento final da minha formação como o início de fato da minha carreira”, conta.

Os motivos? “Primeiro a personalidade de Boulez, dono de um carisma incrível, assim como era profundamente exigente, sempre querendo extrair o que toda peça tem de melhor a oferecer. Além disso, o trabalho diário com compositores ensina muitas coisas. O autor está do seu lado, explicando o que quer, mostrando a lógica interna da partitura. Isso é um enorme aprendizado, até para tocar o repertório tradicional: você começa a olhar com outros olhos uma partitura, tentando descobrir as intenções de um compositor de dentro para fora.”

A música contemporânea também lhe ofereceu uma percepção diferente do próprio instrumento - e as razões levam a conversa de volta a Casals e a Bach. “Eu amo o aspecto lírico do violoncelo, que todos dizem se aproximar do canto, da voz humana. Mas também me interessam particularmente as possibilidades retóricas. Em outras palavras, falar, e não cantar, com o instrumento. Casals, para mim, foi o grande mestre dessa busca. Ele não tenta encantar com a beleza do som do violoncelo, ele quer contar uma história, narrar alguma coisa, fazendo isso, claro, com aquilo que ele tem de mais pessoal como intérprete. E as suítes de Bach nos oferecem essa possibilidade: o que Bach propõe é, antes de mais nada, uma narrativa musical”, acrescenta.

João Luiz Sampaio
Estado de São Paulo 04/06/2016